D. Pedro II (1825 - 1892), sempre foi interessado em tudo que acontecia no campo da arte e da ciência. Era um governante muito admirado em todo o mundo por suas qualidades intelectuais, entre os seus admiradores, estavam o escritor Vitor Hugo e o cientista Louis Pasteur. Em suas viagens pela Europa, ele presenciou um evento cultural que estava virando moda no velho mundo, os concertos de grandes orquestras ao ar livre, com a finalidade de popularizar a música clássica entre a população.
Dom Pedro apreciou tanto esses concertos, que pensou em realizá-los no Brasil, começando pelo Rio de Janeiro.
E o que essa história tem a ver com o Jazz?
Muita coisa. Por uma dessas ironias do destino, os principais auxiliares do Imperador nesta empreitada, seriam dois músicos precursores do Jazz, Louis Moreou Gottschalk e Charles Lucien Lambert. Ambos eram norte americanos, de origem creole, nascidos e criados em New Orleans, e que se mudariam para o Brasil, aqui vivendo até o final de suas existências.
Louis Gottschalk (1828 - 1869), foi um exímio pianista de concertos, regente de orquestra e compositor. Apesar de ser um músico erudito, por exigência familiar, era um apaixonado pela música dos escravos e seus descendentes. Esse exótico ambiente musical que ele vivenciou em New Orleans, o fascinava e o influenciaria em suas primeiras composições. Uma delas, '' The Banjo '', contribuiu muito para o desenvolvimento do Ragtime, um dos elementos formadores do futuro Jazz americano.
Nessa composição, Gottschalk transpôs para o piano, a maneira típica de tocar banjo dos músicos populares da época. Foi uma grande inovação, que influenciaria os pianistas e os principais compositores de Ragtime até os anos de 1920, de Scott Joplin a Eubie Blake. Outra composição de Gottschalk, batizada de '' Peanut Vendor '' ou '' El Manisero , o Vendedor de Amendoins '', adaptada de um de seus estudos sobre o folclore Cubano, seria gravada com sucesso mundial por grandes nomes do Jazz, de Louis Armstrong a Stan Kenton.
Charles Lambert (1828 - 1896), também era pianista, compositor e professor. Veio de New Orleans para o Rio de Janeiro, onde se estabeleceu abrindo uma loja especializada na venda de pianos e de partituras. Apesar de ser um músico de formação erudita, tal qual seu amigo Gotschalk, igualmente compunha músicas semi populares, como as polcas, que eram muito apreciadas na época. Gostava de tocar num estilo conhecido como '' Pianola '', que futuramente seria adotado pelos músicos do Ragtime.
A sua dedicação ao ensino de piano, o tornou conhecido e muito respeitado no Rio de Janeiro, a ponto de ser convidado para lecionar como professor honorário do Instituto Nacional de Música. Em 1881, Charles Lambert daria aulas de composição a um jovem que seria em breve um dos maiores nomes da música brasileira: Ernesto Nazareth (1863 - 1934). Lambert apresentou várias obras de Gottschalk a Nazareth, o que certamente influenciou em muito seu aluno, pois alguns especialistas percebem na música do grande compositor, algumas particularidades que parecem lembrar remotamente, o velho ragtime.
Mas, não vamos esquecer o tal concerto que Dom Pedro II queria fazer.
Gottschalk, estava no Rio de Janeiro, se apresentando com muito sucesso numa temporada de concertos no Teatro Lírico, onde tocou para delírio do público a sua composição, ''Grande Fantasia Triunfal com Variações sobre o Hino Nacional Brasileiro'', dedicada à Princesa Isabel. A família Real Brasileira não perdia os concertos, foi assim que Gottschalk fez amizade com o Imperador e esse o convidou para lhe ajudar a realizar o tal concerto ao ar livre na cidade. Gottschalk aceitou a incumbência e, com a participação de seu amigo Charles Lambert, finalmente, realizou no dia 5 de outubro de 1869, no Campo de Santana, hoje Praça da República, um concerto monstro, com duas orquestras sinfônicas, 650 músicos, entre eles, 31 pianistas que se revezavam em 11 pianos.
O concerto agradou muito e teve uma extraordinária repercussão, como atestam os jornais da época. Tal sucesso motivou em Gottschalk a intenção de residir no Rio de Janeiro, e se dedicar à realização de outros eventos semelhantes. Infelizmente, viria a falecer no mesmo ano, no Alto da Boa Vista onde residia, vitimado por malária, aos quarenta anos de idade.
Esse concerto produziu um grande impacto em Ernesto Nazareth, que estava presente, ainda criança. Ele teve a oportunidade de ser apresentado a Gottschalk, que certamente, ficou impressionado com aquele menino, de apenas seis anos de idade, e já muito interessado em música.
Ninguém poderia prever que esse evento marcaria o início de um curioso caso de influência de dois personagens importados da cultura musical de New Orleans, sobre a obra de um jovem compositor, que no século vinte, se tornaria um ícone da música instrumental brasileira.
Fernando Murta


que sacada boa!
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